Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Obrigada pela visita



A ansiedade é tentar mudar o quadro antes de conhecer a pintura.

Foi a única coisa que ela me disse antes de eu convidá-la para jantar. Ela já pode entrar. Comprei dois tipos de vinho, pois não sabia qual era o seu preferido. Antecipei a ida à feira, pois sei o quanto ela gosta das coisas frescas do primeiro horário da manhã. A casa, sempre metade arrumada e metade desarrumada, estava pronta para seu jazz preferido ou então nossa velha Cássia. Na geladeira, algumas cervejas para o divagar da noite. Devagar ou não, os temperos misturados trariam o clima harmonizado com a meia luz do apartamento. Troquei a lâmpada ontem, pois sei que seus olhos, apesar de pretos, são sensíveis, e poderiam ficar irritados com o amarelado da iluminação.

Sem compromisso com o tempo, deixei à disposição o sofá, a cama e as cadeiras. Também havia um tapete confortável na sala, daqueles peluciados e até mais atrativos que o sofá. A lareira estava acesa à frente, embora eu já estivesse preparada para desligá-la caso Elis sentisse calor. Por via das dúvidas, o controle do ar-condicionado estava a postos, e a janela, meio-aberta.

Sempre fui habituada a comprar incensos com significado para energizar o ambiente. Para não ter erro, comprei o afrodisíaco e o exótico. Havia também o revigorador para o caso de ela querer simplesmente uma massagem entre uma taça de vinho e outra. Eu estava sem pressa aquela noite.

Enquanto trocava o lençol da cama, tentei imaginar a forma como eu esperava o amor. De cabelos longos e pesados, cheirando a perfume cítrico e com a doçura ríspida de quem sabe o que fazer. Em suas palavras, a firmeza de um domínio razoável sobre literatura, passeando pelas esquinas sociais e pela agonia do desencaixe. Alguém que tenha sofrido na vida e que, de preferência, traga algumas cicatrizes à mostra. Quem sabe assim, finalmente, um dia eu mostre a alguém as minhas. Achei que aquela noite fosse o momento.

E então o amor chegou. Reconheci de cara seu semblante. Com algumas distorções, admito, ele chegou eufórico. Tomou o vinho comigo, preferiu ficar de pé a sentar no sofá, na cama ou no tapete. Aqueceu um pouco as mãos na lareira e perguntou se podia levar algumas cervejas para ir tomando pelo caminho. Estava com pressa, parecia preocupado com qualquer coisa que não estava ali e nem em lugar nenhum. Olhava para o relógio ao mesmo tempo que olhava em meus olhos. Precisava ir.

Sem ressentimentos, abri a porta para ela. Olhei profundamente em seus olhos e, num súbito, percebi que havia coisas a serem ditas ali dentro. Depois de analisar, não insisti que ficasse. Coloquei as cervejas numa sacola e recomendei que olhasse menos para o relógio enquanto as tomava. O tempo dele não estaria sincronizado com o dela de qualquer maneira. O amor doeu aquela noite. Agradeci a visita e entrei. Depois de alguns dias, notei que a porta havia ficado aberta. Consciente ou inconscientemente, o vento ainda traz o perfume dela. Talvez seja um aviso de que, sobre tempos e amores, a única coisa que sabemos é que eles podem voltar a qualquer momento.

 

THIANE ÁVILA

 












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