Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Ela me lembra Porto



As ruas de Porto deveriam me apaziguar das tempestades. Enquanto penso como quem sente, lembro-me que queria sentir coisas sobre as quais não penso. No poente da Sé, as nuvens formam-se como que trazendo em seu semblante a cicatriz do seu olhar já perdido. Como que confundida pela foz de Douro, vejo, pelo reflexo da água que corre, cabelos negros compondo o azul do céu, cumprimentando minhas memórias com a calma de quem chegou um dia só para dizer que já estava indo.

É emblemático o modo como o amor percorre os ares daquele lugar. Pela rua da Almada, lembro-me que arrisquei um poema em voz alta na primeira noite que fui ao Hard Rock. Sozinha e distraída, fechei os olhos à beira do balcão e compus a primeira música feita de memória acesa, que cantei mais tarde à certa moça que me ouvia atenta. De cara, ela percebeu que se tratava de uma lembrança. Foi estranho ouví-la perguntar como que alguém como eu, que escreve e canta, estava inspirada em alguém que, naquela noite, estava tão longe. Não havia resposta sagaz para dar àquela pergunta. Seus traços orientais fitavam cada detalhe do meu rosto, focando em minha boca como quem olha curiosa para saber o que havia naquela mulher que, em minhas palavras, estava ao mesmo tempo despida e oculta.

Não houve continuidade para aquela noite. Caminhei, como muitos outros dias, pela madrugada daquela cidade ainda estranha. Foi perto da Praça dos Polveiros que pude reconhecer sua face numa fachada, gargalhando com seu riso tímido em meus pensamentos, fazendo-me lembrar o porquê, por acidente, na vida a gente ama. É porque sou eu e porque é ela. Num súbito, recebi do sereno a resposta para a pergunta da moça oriental da qual eu havia fugido por medo de desconhecer, eu mesma, a resposta certa. Quis voltar ao bar para encontrá-la, pronta para, quem sabe, seguir a noite com mais segurança. Sentei novamente ao balcão, mas, como de costume, o tempo sofreu desencontro, e eu por mais um tempo bebi, escrevendo outro poema para deixar endereçado à moça que me fez pensar sobre as vivências que se materializam independente da distância.

Como os astecas, só que sentada no Candelabro da Rua Conceição, lendo Saramago, pude sentir o meio da vida na sua perfeita irrealidade. Foi um transe sem lógica em que, por alguns instantes, pude experimentar a sensação de ter chegado ao meio do tempo, à linha que divide exatamente as experiências pela metade. Eu sei que não tem a ver com o tempo propriamente dito, mas com as lembranças que escorrem nessa inadimplência do amor. Percebi que, ao levantar, as ruas estariam saqueadas, e o rosto dela estaria exposto nos cartazes pelos postes. Humildemente, teria que pedir perdão aos nascidos em Porto, pois, indiretamente, eu seria a culpada, já que, se não fosse eu, ela não estaria, em todos os lugares daquela cidade, o tempo inteiro estampada.

 

THIANE ÁVILA.

 












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