Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018

Vander Christian

Vander Christian é apaixonado pelo mundo da leitura e escrita. Autor dos romances KARINA, PASSADO E PRESENTE e DUAS VEZES PAMELA MONTEIRO.

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Olhou no espelho, deu mais uma ajeitada no cabelo, escovou os dentes, verificou se todos os documentos estavam na carteira, por fim, saiu de casa. Era mais um dia que estava se iniciando. Trancou o portão e seguiu pela rua, rumo ao ponto de ônibus. Nas mãos, algo indispensável: o celular. O pescoço estava num ângulo estranho, visto de longe, dava até a impressão de que tinha um peso sob a nuca. Chegou no ponto, nem olhou para as pessoas que já estavam lá; curioso que essas pessoas também não o viram chegar, pois tinham nas mãos algo indispensável: o celular. Passaram-se os minutos, aí veio o ônibus, finalmente! Entrou e já foi procurando um lugar para sentar, de preferência, um lugar onde ficasse sem a companhia de ninguém, estava com sorte, conseguiu ficar sozinho... Ótimo, não queria que ninguém começasse a esticar o pescoço para ver um pouco da série que estava assistindo no celular. Uma moeda saiu deslizando pelo chão do ônibus até bater no seu pé, não viu, a série estava mais importante!

Desceu do ônibus, passos largos em direção às catracas da estação. Teve que pausar a série até conseguir chegar na plataforma. Deu uma olhada, nada do trem vir. Pegou o celular novamente e curvou o pescoço, mergulhando, mais uma vez naquele mundo, diante de seus olhos. O trem chegou, empurra-empurra para embarcar, quase o celular cai no vão entre o trem e a plataforma. Não consegue sentar, vai ter que ir de pé. Faz um esforço tremendo para se equilibrar, pois as mãos estão ocupadas: uma carrega o celular e a outra a mochila. Mas tudo bem, o importante é a série...

Desce do trem e vai para o metrô, onde a cena se repete. Alguém parece estar passando mal, bem do seu lado. Não vê, é hora de responder uma mensagem do grupo. Saindo do metrô, ajeita a mochila nas costas, pega o celular mais uma vez e... Quase tromba num poste! Chega na empresa, muda completamente a fisionomia. Lá, o celular tem que ficar guardado no armário. Cinco horas até o almoço. Cinco horas sem mexer naquele objeto tão valioso. Cinco horas desligado do mundo!

A verdade é que estamos assim. Estamos desligados do mundo. Não olhamos mais para os lados. Estamos presos no nosso mundo. Os pescoços vivem curvados numa única direção: para o celular em nossas mãos. Enquanto isso, o mundo de verdade gira, a vida passa. E tem gente achando, que ficar sem celular, é viver desconectado do mundo.  

 

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